Indústria volta a ganhar espaço entre investidores estrangeiros.

04/11/2016 ­ 05:00, Por Tainara Machado, Jornal Valor Econômico.
A rodada recente de compras e fusões de empresas brasileiras por companhias estrangeiras tem um perfil diferente do que foi observado nos últimos anos. Enquanto entre 2010 e 2014 a indústria só perdeu participação na atração de
investimentos estrangeiros diretos, nos últimos dois anos o setor conseguiu ganhar atratividade e recuperou uma parte do espaço perdido anteriormente. Em 2014, a indústria recebeu apenas 30,2% do investimento direto no país (IDP) em participação no capital das empresas, porcentagem que subiu para 38,3% no acumulado até setembro deste ano, segundo dados do Banco Central.
O setor de serviços seguiu na direção contrária. Chegou a alcançar 59,5% do total de investimentos produtivos em 2014, mas desde então vem caindo e, até setembro deste ano, ficou com 46% do IDP.
Para Andrea Damico, economista do Bradesco, a indústria está retomando a participação histórica na atração de investimentos estrangeiros diretos, que costuma estar em torno de 37% do total atraído para setores produtivos.
O setor de serviços, afirma, recebeu parte bastante relevante do IDP no período de forte expansão do consumo doméstico, com a vinda de empresas para o Brasil. Com o fim do “boom” do varejo, diz, é normal que os investidores tenham perdido o entusiasmo do ciclo anterior.
Passada a crise, a tendência é que a expansão da economia brasileira mude um pouco de configuração em relação ao que prevaleceu na última década, afirma Bruno Lavieri, economista da 4E Consultoria.
Para ele, o consumo, que cresceu bem acima do PIB nos últimos anos, não deve mais repetir o desempenho da década
passada e a expansão do PIB deve se basear mais no investimento e na indústria daqui para frente, afirma ele.
Dentro do setor manufatureiro, os segmentos que atraem parcela maior do capital estrangeiro são máquinas e
equipamentos, minerais não metálicos e máquinas, aparelhos e materiais elétricos, segmentos mais associados aos
investimentos. Esses setores ficaram com 22% dos US$ 13 bilhões investidos na indústria neste ano, contra 13,9% em 2015.
O ramo de máquinas e equipamentos recebeu US$ 947 milhões em recursos produtivos até setembro deste ano, o
equivalente a 7,3% do aporte total para a indústria no período. Nos quatro anos anteriores, o setor ficou com uma parcela menor dos recursos destinados ao remo manufatureiro, de 5% na média.
Para Luis Afonso Lima, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização
Econômica (Sobeet), parte da reversão de tendência observada nos últimos meses pode ser atribuída à desvalorização do câmbio, que tende a beneficiar mais o setor exportador industrial, enquanto a capacidade de consumo doméstico fica comprometida.
Para Lavieri, da 4E, ainda é cedo para afirmar que essa tendência mais recente indique novo ciclo de investimentos baseado na indústria, porque muitas vezes os dados de IDP não refletem exatamente a entrada de recursos produtivos no país.
O volume de investimentos estrangeiros diretos se manteve elevado, diz ele, mas a taxa de investimentos caiu para 16,8% até o segundo trimestre de 2016. É possível, afirma, que as empresas estejam aproveitando o momento em que o real está mais fraco para enviar recursos para o país, mas sem tirar os projetos do papel. Ele cita o exemplo do setor de veículos, que continua a receber aportes elevados, embora a capacidade ociosa seja bastante elevada.
Andrea Damico, do Bradesco, avalia que a melhora relativa da indústria em relação ao setor de serviços também pode estar relacionada aos preços dos ativos nesse ramo de atividade, mais baixos por causa da longa crise enfrentada pelo setor.
Como o investidor tende a ter visão de longo prazo sobre a economia brasileira, aproveita para se posicionar no mercado nesse momento, diz. Nos últimos anos, apesar da recessão que tirou quase 7% do PIB, o IED seguiu em torno de US$ 60 bilhões. Além da visão de longo prazo e dos preços competitivos, as vantagens comparativas em commodities e as instituições fortes do país também contribuem para explicar a manutenção do país como destino importante para o capital estrangeiro.

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